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Olá olá. Que tal esse país desenvolvido?

Quero dedicar este post a falar do Guiné-Bissau, no geral, e do povo guineense, em particular. Obviamente que vai ser um post incompleto porque todos os dias descubro algo novo sobre este povo e porque de certeza que vou-me esquecer de coisas que até seriam interessantes de mencionar. Devo desde já avisar, também, que este post é capaz de não ser relevante para quem não quer saber da Guiné-Bissau. Não planeio contar a ocasional história caricata, como aquelas que envolvem galinhas mártires ou aranhas sanguinárias. Aconselho a quem não gostar deste post a escrever no meu livro de reclamações (só aceito reclamações em Crioulo). A ideia neste post é fazer a caminha para, posteriormente, falar de temas mais complexos, tipo problemas da sociedade da Guiné-Bissau, segundo a opinião de um jovem português. Para isso, é importante haver um contexto.

 

Eu normalmente vou escrevendo o post e por vezes tenho ideias sobre como organizar as ideias, mas ainda não sei como vou organizar isto porque há muitos aspectos diferentes que posso descrever. Se eu fosse uma pessoa decente, pensava primeiro e escrevia depois. Mas se quiserem um blog bem escrito, arranjem outro amigo hipster.

 

*pausa de 15 minutos, para pensar em como dividir isto*

 

*passaram 3 dias, desde que escrevi esta primeira parte. Bom commitment, campeão*

 

O Clima

 

Não quero meter aqui muito nojo, porque sei que a temperatura aqui é um bocado invejável, quando comparada à de Portugal nesta altura do ano. Quero apenas dizer que o clima é tropical e que, portanto, existe a época seca e a época das chuvas. A época das chuvas é de Maio até Novembro e acho que aqui em Cacine as estradas ficam ainda piores e que a vida no geral é mais díficil. Não fiz de propósito, mas vim na melhor altura do ano, neste aspecto. Ainda não há o calor abrasador que começa a meio de Abril e a época da chuva começa na última metade de Maio. Por essa altura já vou estar a voltar para o início do bom tempo de Portugal. Nada mau.

 

A História da Guiné-Bissau

 

Bom, todos nós sabemos que a Guiné-Bissau já foi a Guiné Portuguesa. A História da Guiné-Bissau começa com a independência face a esses colonos nojentos, em 1973 (acho eu, não sou a wikipedia). Já agora, tenho estado a brincar. Os guineenses não guardam rancor em relação aos portugueses.

Os heróis nacionais e alguns dos feriados que a Guiné-Bissau tem são, portanto, relativos a esse período. A figura mais importante da luta pela independência foi o Amílcar Cabral (bom nome, já agora), que morreu antes de ver a Guiné indepedente. Em muitos sítios diz que foram agentes do Salazar que o mataram, em Conacri (capital da Guiné-Conacri), mas ao que parece foi uma facção do partido, a que o Amílcar Cabral fazia parte, que não estava a gostar de algumas das ideias que ele tinha.

 

(Já agora, vamos esclarecer aqui uma coisa. Eu escrevo sempre Guiné-Bissau por preciosismo. Não escrevo só Guiné porque existe também a Guiné-Conacri (vizinha da Guiné-Bissau) e a Guiné Equatorial. A partir de agora se eu escrever Guiné vocês percebem, certo? Óptimo, porque isto de escrever "-Bissau" cansa e gasta as teclas).

 

A Política

 

Há muita história em relação à política na Guiné-Bissau e está muita coisa a acontecer neste momento. Tudo o que eu sei da política da Guiné foi-me contado, portanto posso estar a dizer coisas erradas ou posso estar influenciado pela parcialidade de quem me contou, apesar de tentar manter-me o mais distante possível de uma opinião. Não acho que tenha tempo para saber o suficiente e inclinar-me para um lado. Este blog é apenas a minha percepção das coisas. Querem factos e objectividade, estão no sítio errado.

No entanto, se chegar a perceber o suficiente sobre a situação política, gostaria de escrever neste blog sobre isso. É incrível os truques e voltas que aqui acontecem e que não chegam aos nossos noticiários.

Então, a Guiné-Bissau faz parte de um grupo de países chamado Comunidade Económica dos Estados da África Ociental (CEDEAO). O objectivo desse grupo é desenvolver a região e resolver conflitos que possam existir (e existem muitos). Com alguns desses países, a Guiné-Bissau partilha a moeda que já referi, o XOF, coloquialmente chamado franco (ou "fran" em Crioulo. Estou fortíssimo). É relevante mencionar que a Guiné faz parte desta comunidade por causa da parte da resolução de conflitos.

Neste momento, aqui na Guiné, a situação política está instável. Existe uma luta entre o partido que impulsionou a independência e que o Amílcar criou: o PAIGC. Este partido, ao qual pertencia o actual Presidente da República <inserir nome do presidente, não me apetece ir ver>, teve uma guerra qualquer interna da qual resultou a expulsão do Presidente e de 15 outros deputados da assembleia. 

A CEDEAO, como mediadora, criou o tratado de Conacri que obriga o Presidente a escolher um primeiro-ministro que seja consensual entre todos. Acho que os problemas que há neste momento é porque o Presidente está a escolher primeiros-ministros que não estão no acordo, criando problemas. Por esta razão, nos 3 anos de mandato do Presidente, acho que já houve 5 primeiros-ministros.

 

A Economia

Como em qualquer sociedade, se a política é instável, a economia  não pode crescer. Como a situação não é estável desde a independência, o país tem uma economia muito fraca. Claro que isto, na prática, se traduz em pobreza. Eu devo dizer que antes de vir para cá e durante toda a minha vida, imaginava a Guiné-Bissau como sendo um país menos desenvolvido que Portugal mas que também não era uma Serra Leoa. Quando cheguei cá percebi que a realidade é dura. Talvez em posts posteriores consiga formular a minha percepção e opinião sobre esta realidade.

A economia vai dependendo maioritarimente do caju, que eu apenas conheço de Portugal como sendo um fruto seco delicioso, usado para várias coisas (na verdade, não sei bem para que é usado). Muita gente consegue bom dinheiro nessa altura chegando mesmo a haver pessoas de países vizinhos a vir trabalhar na apanha do caju. A altura do caju é durante a época das chuvas. Infelizmente para mim, a época das frutas boas, e que vocês podem imaginar que existem num país tropical, também só estão boas nessa altura.

 

("Economia" soa muito bem num texto em que estou a descrever o país, até parece que percebo da coisa. A verdade é que não sei muito mais. Sei que já foram grandes exportadores de arroz, mas houve um presidente que tinha empresa de importação de arroz. Portanto, deixaram de o ser. Coisas que acontecem na Guiné).

 

As Etnias

 

Na Guiné as etnias ainda têm muita influência na sociedade. Cada guineense pertence a uma etnia e cada etnia tem os seus costumes e tradições. Muitas vezes existem conflitos em tabancas que envolvem duas etnias que não se dão bem.

Existem muitas etnias pelo país. Aqui em Cacine são maioritariamente Nalus e Balantas. Ainda estou a descobrir um pouco em relação a estas etnias, mas parece-me que há tradições bastante complicadas como os casamentos combinados entre famílias. Nem sempre a diferença de idades é tida em conta na decisão, é comum haver raparigas menores a casar com homens mais velhos. É também comum um homem ter mais que uma mulher e, consequentemente, filhos infinitos.

No geral, vejo que o machismo está na base para muitas decisões tomadas e as mulheres devem ter uma vida (ainda mais) difícil por aqui. Fazia falta aquele tipo de feministas que são muito interventivas e que se ofendem com facilidade...ah esperem, o facebook não é muito usado aqui

Por outro lado, também há coisas bonitas como as danças de cada etnia e o vestuário. Há umas semanas, tive oportunidade de ver um número de dança de Balantas, que têm o seu próprio estilo. Foi incrível. Sentido rítmico está nos genes desta malta.

 

A Religião

 

Outra coisa que, antes de vir, não fazia ideia em relação à Guiné é que a maior parte são muçulmanos. Também existem alguns Católicos e Envangélicos, muito influenciados pela aposta de missionários destas duas correntes, desde há muitos anos atrás. No entanto, parece-me que a cena de um homem ter várias mulheres não impede de este ser católico ou envangélico (vá-se lá saber).

Embora exista a religião que cada um tem, a maioria dos guineenses acredita no animismo. Basicamente é a crença nos espíritos e coisas que tais. Tem algumas coisas boas, como o respeito pela natureza (ou medo), e coisas más como as feitiçarias e macumbas. A ver se saio daqui sem que me seja feita uma. As macumbas, pelo que percebi, passam um bocado por pessoas que começam a fazer tudo por outra e ficam meio tã-tãs, não é bem a cena da boneca de vodoo. A malta com quem convivo acredita nessas coisas, mas eu acho que vou chegar ao fim da viagem e vou continuar a não acreditar, fiquem tranquilos.

 

Tenho que fazer notar que a sociedade guineense está a mudar as suas mentalidades e muitas das coisas que disse aqui não são verdade para todos os guineenses. Mas, de facto, é tudo muito diferente do que estou acustomado. Dá que pensar e pensar é bom. Pensem nisso, 10 amigos. Pensem também em como gostariam de ter um amigo que não escrevesse posts grandes pa cacete. É muito isto.

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Estou indignado.

Então uma pessoa vem para a Guiné-Bissau, dar aulas gratuitas de informática e português, abdicando do seu tempo e investindo do seu dinheiro para ter problemas de saúde pouco prováveis?

Mais ou menos na segunda 5a-feira desde que estou aqui em Cacine, começou a doer-me os dentes. Não me preocupei muito, tomei paracetamol para a dor passar. Na noite de sexta para sábado, acordei devido a dores e desconfiei que o problema não ía lá com paracetamol. Pesquisei na net, toquei na minha dentição e presumi que tinha um dente do siso. Em 24 de anos, nunca tive dentes do siso, até me considerava um ser mais evoluído por isso*, E TINHA QUE CALHAR AGORA?!

Comecei a imaginar onde é que haveria um dentista aqui que pudesse resolver o assunto, talvez só em Bissau (de notar que o sistema de saúde aqui é muito fraco). Comecei também a pensar que provavelmente, com condições básicas, só em Portugal é que conseguiria tratar disto e que a minha viagem ía ter um fim abrupto (as coisas que uma pessoa com dor de dentes pensa, às 5h da manhã). No dia seguinte, sábado de manhã, falei com o José e ele disse-me que havia um brasileiro que tinha uma clínica a 40 km de Cacine (não me lembro do nome da tabanca). Depois de o contactarmos, ele disse para passar lá ainda nesse dia. Dentro do azar, até que não foi mau. Podia ser bem pior.

Então, na tarde de sábado eu e o Jonathan, um rapaz da associação metemo-nos na mota para fazer a viagem até à tabanca onde está a clínica. Foi engraçado porque foi a primeira viagem mais longa que alguma vez fiz na parte de trás de uma mota. O Jonathan, apesar de ser seguro na condução, conduz rápido. Já referi anteriormente que as estradas são péssimas aqui no sul. De modos que a viagem para lá pareceu uma prova de motocross. A diferença é que estávamos a andar a 60 km/h (é rápido para essas estradas) e estávamos de calções e t-shirt (já fugimos à regra da Guiné-Bissau ao usarmos capacete, nada mau). Estava um bocado borrado.

Quando chegámos lá, passados uns 45 minutos, vi que a clínica era fixe e até tinha condições. Em termos de condições, parecia que estava em Portugal.

O que ninguém me tinha preparado, é a dor que é arrancarem-nos um siso. A sério que fui para lá a pensar que ía ser uma coisa tranquila sem grande stress, não estava psicologicamente preparado para a experiência. Acho que ainda tenho o cheiro do meu dente a ser serrado ao meio entranhado no nariz. Pa, se o resto dos meus dias vai ser a contar os tempo que falta até que o próximo siso me dê problemas, eu prefiro que a minha vida fique por aqui. Já foi bom.

No fim, paguei 5.000 francos (≈ €7.5). Dá para acreditar? Baratíssimo.

Depois a viagem de volta já foi mais tranquila, por já estar habituado. Uma pessoa aqui na Guiné-Bissau ou mete de lado o que acha serem as regras básicas de segurança na estrada ou então vai sofrer muito psicologicamente (improve, overcome, adapt).

A recuperação também não é fixe, passei o resto fim-de-semana a comer sopa instantânea e cerelac (ou lá como se escreve). Pedi também ao José para me arrefecer garrafas de água para aliviar a dor (relembro que não tenho frigorifico em casa). Mesmo assim queria falecer.

 

E pronto, fim de mais uma aventura indesejada. Neste post quis dar a sensação que estou admirado e indignado por isto ter acontecido mas a verdade é que não vou ao dentista regularmente. Foi, portanto, o karma a fazer das suas e a provar que não sou mais que ninguém. Bem feita.

Aproveito para deixar uma mensagem, estilo raise awareness,  a todos os leitores:

*aquele som de preparar a garganta* *música inspiradora de fundo*

Todos os anos, milhares de jovens Portugueses na Guiné-Bissau, têm uma dor de dentes devido à falta de prevenção. Eu também pensava que só acontecia aos outros (jovens portugueses na Guiné-Bissau). Não seja o próximo, proteja-se. Vá ao dentista. Fuja, se ele disser que é para arrancar.

Juro que pensava que este post não iria ser grande pa cacete mas, mais uma vez, a minha falta de síntese surpreende-me. Espero que esteja tudo bem com os vossos dentes, 9 amigos.

 

*Sabiam que os dentes do siso são um resultado da evolução da espécie humana há milhares de anos? Então, antigamente a nossa alimentação era à base da carne. Eram precisos muitos dentes para mastigar mamute, daquele rijo. Hoje em dia já somos temos uma alimentação mais variada, com alimentos mais moles, e não precisamos tanto dos dentes para mastigar a comida. A resposta natural da espécie humana é reduzir a dentição e o tamanho da boca, estamos a trabalhar para isso.

Este blog pode ser uma treta, mas quem leu este post até ao fim já sai daqui a saber mais uma coisa. Professor Pedro, coming at you.

É muito isto.

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publicado às 19:22

Professor Pedro

19.02.18

Num dos últimos posts comecei a descrever a vida por aqui em Cacine. Neste, vou falar do meu trabalho como professor da Associação Amigos das Escolas da Guiné-Bissau (AAEGB). Antes de escrever este post, pensei que era bom deixar passar as primeiras semanas. Assim descrevo uma opinião já mais formada e não só o reflexo do choque inicial. No fim, apreciem um pequeno twist.

 

As aulas de informática

 

Então, visto que estudei Engenharia Informática e havendo falta de conhecimento por parte de pessoas aqui de Cacine em relação a computadores, foi-me proposto, como objectivo principal, dar aulas de Informática. A ideia seria dar aulas a duas turmas (≈ 12 pessoas cada), a primeira das 9h30 às 11h00 e a segunda das 20h00 às 21h30, para pessoas mais velhas que trabalham. Antes de começar as aulas não fazia ideia como é que ía preencher aulas de 1h30 durante 14 semanas, parecia-me demasiado. Na primeira aula, percebi que não iria ser difícil. Estamos a falar de uma turma de pessoas que nunca mexeu num computador. Como eu sou um jovem do ocidente nem me lembro muito bem de quando não sabia mexer num computador, portanto está a ser necessário fazer o exercício de pensar no que é o essencial de mexer no computador. Tem sido um desafio gigante à minha paciência, confesso que às vezes foge um bocadinho e nota-se na minha voz. Isto porque passos básicos como selecionar um ficheiro torna-se um desafio para alguns alunos e demoram uma eternidade até conseguirem fazê-lo. Vou sair daqui um monge budista.

É ainda mais complicado porque o projector que a associação tinha, que era usado nas aulas de informática para demonstrar certas operações, avariou. Em princípio, algures em Março vai chegar um novo projector, pode ser que aí arranje outra desculpa para estar a ser complicado dar aulas de Informática.

A segunda turma, a das 20h00, já é malta que teve aulas de informática, com um outro voluntário. 90% dessa turma são professores da escola Betel. Não é que seja fácil, o conhecimento continua ser pouco, mas já não estão a começar do zero no que toca a mexer em computadores, sempre dá mais pica.

No geral estou a gostar bastante de dar as aulas de informática, sinto que é mais a minha praia e penso que tenho alunos interessados nas aulas.

 

As aulas de português

 

Já antes de embarcar nesta aventura à Guiné-Bissau, o José me tinha pedido para dar aulas de português ao 5º e 6º ano, porque o professor que costuma dar essas aulas estava a receber tratamento médico em Bissau. Logo no primeiro dia de aulas o José também me pediu para substituir o professor de Português do 10º e 11º ano, porque o pai do professor que dá essas aulas morreu (os funerais demoram muitos dias). Aceitei sem problemas.

No primeiro dia de aulas percebi que não estava minimamente preparado para ensinar aquelas aulas. Fizemos um ditado e, quando pedi aos alunos para me irem mostrando o resultado, fiquei boquiaberto com a quantidade de erros que eles deram. E isto foi assim em todas as turmas (5º, 6º, 10º e 11º).
Só para contextualizar, Português é a língua oficial do país, mas não é a língua que o pessoal fala mais. Muito menos aqui em Cacine. Isto aliado ao facto dos professores não estarem preparados para dar aulas (comparativamente à educação em Portugal) faz com que o nível de Português ensinado nas escolas seja muito baixo. Não me interpretem mal, isto não é um caso em que é uma associação de voluntariado com muito boa vontade mas são uns coitadinhos. O problema é bem maior e é a nível nacional. Pelo que percebi a escola Betel está acima da média, o José contou-me que, nas escolas do estado, os professores nem sequer aparecem para dar aulas. Claro que depois não há milagres e escrevem coisas como “Guené Bissau”.

Foi uma semana muito puxada. Cada turma tem 5 tempos de 45 minutos de cada disciplina. Não tive tempo nenhum para preparar as aulas, como deve ser. Pedi para fazerem composições e coisas desse tipo, para poder perceber quais são as maiores dificuldades.

Felizmente na sexta-feira era o dia da entrega de provas (trimestrais) e os pais iam à escola. Por isso, não houve aulas. Na segunda semana, 2a 3a e 4a houve férias do Carnaval. Foi um período em que pude descansar bem e os professores puderam voltar.

Encontrei-me com o professor de Português do 5º e 6º ano e combinámos dividir a carga horária dessas turmas. Ainda estou a batalhar um bocado com este dilema. Por um lado, tenho completa noção que as minhas aulas de Português são uma merda e que me faltam muita experiência para ensinar. Já nem sei as cenas de gramática tipo tempos verbais e cenas dessas. Por outro lado, por ser português, tenho mais conhecimento natural da língua que os professores daqui e portanto estou mais habilitado que eles para dar Português, infelizmente. Deixei de lado o que acho ser um bom professor de português e, para já, vou continuar a dar aulas de 5º e 6º ano. Pode ser que ajude qualquer coisinha.

 

De professor a aluno

 

Como eu disse, apesar de Português ser a língua oficial da Guiné-Bissau, é o Crioulo a língua mais falada. Foi-me apresentada a oportunidade de ter aulas de Crioulo com um rapaz chamado Idrissa (meu aluno da aula de informática da noite, aluno do 11º na escola e professor de 5º ano de Matemática também na escola Betel). Também se fala um outro dialecto aqui no sul que é o susso (ou lá como se escreve), mas nesse nem vou mexer. É mesmo imperceptível.

Não acho que seja muito bom a aprender línguas e Crioulo parece-me particularmente difícil porque toda a gente fala rápido. Além disso, como referi, o nível de ensino por aqui é baixo, então que acho que as aulas também não são dadas da melhor forma. Passa muito por copiar frases em Crioulo e traduzi-las para português e ir lendo o que escrevi. Atenção não me estou a queixar nem quero parecer ingrato, o Professor Idrissa está a despender o seu tempo para me dar as aulas, a custo zero. Já é muito fixe da parte dele. Portanto, vou tendo as aulas, todos os dias da semana depois da aula de informática, das 21h30 às 22h30. Pode ser que daqui a uns meses escreva um post só em Crioulo. Não era fixe?

Posso sempre escrever um post numa língua inventada por mim. Duvido que vocês vão perceber a diferença e duvido que exista a língua Crioulo no google translate.

 

Epa, este post ficou grande pa cacete, mesmo omitindo algumas coisas destas primeiras aulas. Então e o nosso Benfica, 8 amigos?
É muito isto.

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Boa tarde, plebeus.

 

Como normalmente não gosto de ler textos com imagens pelo meio e como acredito que não seja o único, gostaria de começar a dedicar alguns posts para também fazer a reportagem visual da minha experiência na Guiné-Bissau. Recentemente ganhei o gosto pela fotografia e estou a aprender umas coisas (sim, também sou aquele amigo hipster que gosta de fotografia). Vou tentar que o texto nestes posts sejam curtos; somente o necessário para dar contexto às fotografias. Algumas das fotos podem ou não estar incluídas no meu instagram. Na dúvida é estar atento ao blog e ao instagram. Aqui vai:

 

Esta é a vista do lado de fora da casa do Francisco, muito fixe.

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Isto é em Bissau Velho, um antigo bairro com arquitectura colonial:

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Jovem português a apreciar a bela da bock com vista para a ilha do rei, em Bissau:

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A viagem de Bissau para Cacine, muita gente faz a sua vida a andar a pé.

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Almoço da galinha mártir (nunca serás esquecida):

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 Eu em frente à casa onde estou a morar. A minha porta é a da direita.

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publicado às 19:00

 

Então que tal? No último post descrevi a viagem de Bissau para Cacine, destino este onde vou passar a maior parte da minha estadia na Guiné-Bissau. Neste post vou descrever a minha casa e o projecto, tal como me foi explicado. Concluo com a minha impressão sobre Cacine, como localidade.

 

A minha casa

 

Quando cheguei, numa sexta-feira à noite, apresentaram-me a minha casa. É um edíficio que na verdade tem duas casas. Ao meu lado, vive outra voluntária, chamada Helen. É canadiana e tem 60 e tal anos. Muito simpática.
Mas bem, a minha casa tem três divisões: a cozinha, o quarto e a casa-de-banho. A cozinha tem uma mesa que serviria para refeições, não fosse eu um desarrumado por natureza, portanto uso para deixar coisas em cima. Tem um fogão pequeno com dois bicos, ligados a uma botija de gás. Tem também um armário onde eu guardo os meus mantimentos e onde há talheres e cenas.

O quarto é fixe, duas camas individuais e um armário para guardar a roupa. Tem também uma secretária que eu uso para deixar coisas e, no espaço que resta, uso o computador.

A casa-de-banho também seria fixe, se a água do chuveiro e da torneira não viessem a conta-gotas. Não há água quente, também. Eu que, em Portugal, até no verão uso água quente, pensava que tomar banho de água fria iria custar. Não sei se por a temperatura aqui em Cacine ser agradável ou por eu já estar psicologicamente preparado para fazer sacrifícios, não me custa tomar banho de água fria. 'Tá tranquilo.

No geral a casa tem um aspecto velho, mas é um espaço digno e vejo-me a morar aqui durante alguns meses, sem problemas. A casa até é fresca, tenho luz 24/7 e tenho electricidade para carregar as cenas quando faz sol…literalmente (energia solar ftw).

Ainda na primeira noite, depois de já estar sozinho no meu espaço, não pude deixar de reparar que no canto do tecto, mesmo no canto acima da minha cama, estava uma aranha, assumo que a olhar para mim. Reparem que não era um aranhiço que normalmente costumo ver em Portugal. A aranha era tão grande que acho que a certa altura começou a falar comigo, e disse “estás a olhar para onde, oh palhaço?”, mas posso ser só eu a exagerar. Gostava de poder dizer que resolvi o problema sozinho com o auxílio de uma vassoura, como um homem capaz deve fazer. Mas não fui, pedi ajuda. Orgulho para o galhete.

Entretanto, depois do primeiro choque já tenho lidado com os bichos sozinho (desde baratas, formigas, mosquitos a osgas). Faz parte da experiência.

No entanto, numa noite encontrei uma aranha também bastante grande na cozinha e esmaguei-a parcialmente com a vassoura. Digo parcialmente, porque quando tirei a vassoura, a aranha fugiu. Agora, passo as noites à espera do momento em que a aranha, sedenta de vingança, me venha colher a vida. É assim que imagino o reencontro:

- Últimas palavras? - pergunta a aranha. Conformado com o meu destino, respondo:
- Lamento toda a dor que te causei. Make it quick :')

Ou algo do género.

 

O projecto

 

Associação Amigos das Escolas da Guiné-Bissau (AAEGB) é um projecto criado já há 20 anos, pelo José. Traduz-se numa escola chamada Betel, do pré-escolar ao 11º ano e, num local mais afastado, a rádio local chamada “Voz de paz” e a sala de informática. Neste local onde existe a rádio e a sala de informática, a energia do edifício é fornecida por um gerador, por isso uma vez por outra, tenho que o ir ligar. Vida de tabanca.

A rádio funciona todos os dias das 19h30 às 22h30, acho. Para aproveitar que o gerador está ligado durante as minhas aulas de informática da manhã, também existe uma emissão das 9h30 até às 11h. Os locutores são voluntários da associação. Muitos também dão aulas na escola.

O projecto também dá ajuda monetária a alunos da escola que, depois de acabarem o 11º ano na escola Betel em Cacine queiram fazer o 12º ano e um curso superior. As pessoas que são ajudadas a fazer um curso superior, quando terminarem, vão voltar para Cacine e vão ajudar a comunidade com o curso que tiraram, têm que assinar um contracto. No entanto, há um limite de estudantes que pode estar em Bissau porque a associação não consegue ajudar muitos de cada vez. É normal alguns esperarem em Cacine durante um ano ou assim até terem oportunidade de ir estudar para Bissau. Imagino que para quem passa a gostar mais de Bissau, que ainda assim tem mais condições de vida e oportunidades que em Cacine, tenha muita dificuldade em voltar. Mas aparentemente, a associação ajuda pessoas que são bastante altruístas e que gostam mesmo de Cacine. De qualquer maneira, é uma estratégia muito fixe para melhorar a vida de Cacine, formando as pessoas e possibilitando-as de exercerem a profissão enquanto ajudam a comunidade.

 

A tabanca

 

Aqui na Guiné-Bissau, chamam tabancas às aldeias. Cacine é uma tabanca na região do Tombali e é uma espécie de capital para as tabancas menores que existem na zona. Mas não pense, o leitor, que é um grande centro urbano. No fundo Cacine é uma rua principal, onde existem umas 5 lojas de conveniência, uma farmácia e um hospital muito pequeno (não tem médicos, só enfermeiras). A boa notícia em relação ao hospital é que vai dar para fazer o teste malária quando estiver a morrer, o que é agradável. Existem uns postes de luz alimentados a energia solar, mas nunca os vi a funcionar todos ao mesmo tempo. Uma coisa que reparo aqui na Guiné-Bissau é que as coisas funcionam...às vezes.

Como é uma tabanca junto ao mar, também tem um porto e existe alguma exploração de peixe, por parte de uma empresa coreana. Pelo que ouvi, além de explorarem peixe, também exploram os guineenses nas condições de trabalho. Além disso, e o mais importante, como o peixe é todo exportado, resta pouco para eu comprar caso esteja cansado de comer arroz com atum de lata. Vida dura. (É só humor, pessoal. A exploração de guineenses é o mais importante, vá).

Mas a melhor cena em Cacine é que tem praia! Ok, não é uma grande praia, quando a maré está cheia não há areia seca para pousar nada, mas é melhor que os 2 ºC que têm estado aí em Lisboa, seus rotos. A temperatura da água diria que é tipo Algarve. Portanto, nada mau.

 

Com isto, termino o post. Tinha planeado descrever também sobre a minha primeira semana aqui, falando da minha experiência como professor e como aluno, mas como este post já estava a ficar grande pa cacete e como eu divago, vão ter que ficar à espera e na ignorância até que me apeteça escrever no blog novamente (eu sei que vai custar). Isto porque e eu não quero maçar os meus 7 amigos, caso ainda estejam a acompanhar, com a leitura do novo testamento.

Despeço-me com uma foto da minha casa e eu, ainda de boa saúde. Vivo na selva!

 

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 É muito isto.

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publicado às 20:30

Como é que é, pessoal? Esse frio aí em Portugal? Aqui estão uns escassos 30º.

 

Metendo o nojo de parte, vou agora falar do minha partida de Bissau para Cacine.
Durante a minha estadia em Bissau, tive oportunidade de almoçar com o José Valberto, o responsável pelo projecto em Cacine. Ele veio à cidade levar uma voluntária brasileira ao aeroporto e tratar de mantimentos e assuntos variados que não podem ser  tratados em Cacine.

Deixem-me contextualizar: eu aceitei ajudar num projecto durante três meses da minha vida, confiando que iria ter condições básicas...e nunca tinha falado com o José pessoalmente. O risco de isto dar raia era muito alto. O meu objectivo naquele almoço era perceber a veracidade do que me foi dado a entender por escrito e obter o máximo de informação possível para me poder preparar, psicológica e sobretudo logisticamente, para a minha estadia em Cacine.
A primeira impressão foi boa, o José pareceu-me bastante contente em ter voluntários a ajudar no projecto e pareceu-me bastante preocupado em deixar os voluntários à-vontade, referindo que é importante cada um ter o seu espaço para ter momentos do dia de paz, sossego e momentos de passeio também. Parte dessa tarde foi também passada a acompanhar o José na compra de várias coisas. Fomos à Feira do Cooperante, um mercado de artesanato onde percebi que é bom ir com o José a sítios. Isto porque ele já conhece algumas pessoas na cidade que já não lhe fazem preços de branco. No fim combinámos que a nossa descida para Cacine havia de ser na sexta-feira seguinte.

 

Chegado esse dia eu e os meu mantimentos (maioritariamente latas de atum) entrámos no jipe que me havia de levar até Cacine, por volta das 9h. Durante a minha estadia ouvi várias versões do tempo que demora a viagem, houve quem dissesse que eram 8h, houve até quem disse que eram apenas umas meras 3h. Cheguei a Cacine por volta das 19h (com paragens, é certo). Por um lado foi uma viagem bem longa e uma grande seca. Por outro, por ser a primeira vez que estava a fazer aquele caminho (na sua maioria com paisagens muito fixes), por termos parado nalguns pontos estratégicos (para almoçar a para fazer mais algumas compras) e por estar a viagem toda a falar com o José sobre vários assuntos, até se passou bem.

 

A paragem para almoçar talvez seja a mais relevante/interessante para eu descrever. Almoçámos perto de uma terra chamada Mampata. É um sítio muito bonito, com um rio, muita vegetação à volta e tal. A experiência no restaurante  foi caricata.

Então, primeiro chegámos lá, já tarde e a más horas, por volta das 14h (antes só tinha comido o pequeno-almoço, por volta das 9h, imaginem a fome do menino). O sítio era um antigo quartel que tinha sido recuperado por um português que não estava na Guiné-Bissau nesse momento. O espaço era muito agradável, com vegetação e umas espreguiçadeiras com vista para o rio e os animais andavam à solta (galinhas e cabras). A senhora que nos atendeu disse que só tinham cafriela (frango com um molho acompanhado de arroz e batatas)...perfeito. Soou-me bem. Dirigi-me à casa-de-banho e quando voltei o José explicou-me, rindo, que embora houvesse cafriela, disseram-lhe que ainda seria necessário matar a galinha para fazer o prato !!!!!!! (bem que tinha ouvido as galinhas a fazer demasiado barulho enquanto estava a urinar). O segundo pensamento, que me passou pela cabeça, foi "isto vai demorar, vou morrer aqui".
Mas não morri, fui passear, tirei umas fotos, pensei que se tivesse que matar toda a carne que consumo provavelmente seria vegetariano (nesse sentido sou um carnívoro cobarde, assumo a hipócrisia) e, quando voltei, o almoço estava pronto. Podia ter tido a humanidade de me sentir mal pela galinha que tinha visto a sua vida encurtada para nos alimentar, mas não tive. A fome é um instinto primário, a humanidade não tanto. 

Deixo aqui uma palavra de apreço: Descansa em paz, galinha. Se te servir de consolo, estavas deliciosa.  As minhas orações e pensamentos estão com a tua família, que também tive a oportunidade de conhecer e que acho que se vão reunir a ti muito em breve. Não desistas.

 

Outra coisa que quero referir em relação à viagem é a qualidade das estradas...péssima. Até Quebo, estrada em alcatrão mas com muitos buracos (causados pela época das chuvas), depois de Quebo, terra batida com (ainda mais) buracos e poucos sítios com terreno plano. Só é possível mesmo com um jipe.

 

Já nessa estrada de terra batida, o cenário começou a adensar-se. Muita vegetação e moranças (casas de habitantes daquelas terras). Uma coisa que me pareceu muito estranho quando comparado com viagens de carro que fiz em Portugal ou noutro sítio qualquer da europa: é difícil andar 100m sem ver alguém. Pessoas a andar a pé ou de mota, a carregar coisas, a fazer a sua vida e casas à beira da estrada. Foi assim o último trecho da viagem.

 

Quando cheguei a Cacine, conheci a minha casa, a que haveria de ser durante os seguintes meses. Se ainda me apetecer escrever neste blog, proximamente vou falar sobre a minha habitação e do meu dia-a-dia aqui. Agora vou deixar-vos, 6 amigos, porque este post já ficou grande pa cacete.

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publicado às 10:00

Bom, há mais ou menos um ano e meio comecei a fazer boxe. Já algum tempo que queria experimentar um desporto de combate e boxe pareceu-me muito bem. Passado este tempo todo percebi que, além de estar a adorar aprender a técnica e melhorar a cada treino, também estou com uma condição física incrível. Recomendo a todas as gordinhas (caso queiram deixar de o ser) que estiverem a ler isto.

Uma das desvantagens de ter vindo nesta aventura é que sabia que iria ter que fazer uma pausa no boxe, o que me iria fazer perder um bocado da condição física que tenho e iria quebrar o bom ritmo de aprendizagem que estava a ter. “Tranquilo, campeão. Quando voltar a Portugal volto ao ataque.” imaginei eu pensando que só iria voltar a bater num saco dali a uns meses.

 

E não é que existe um (e um só) clube de boxe em Bissau? O Francisco explicou-me que havia um lutador de boxe Guineense que cresceu em Portugal e que, além do de Bissau, tinha alguns clubes de sucesso em Nova Iorque, o Da Costa. Decidi ir lá ver se dava para ter uma aulinha, nem que fosse só para tirar uma foto e mostrar à malta do KO dos Olivais Sul (“olha-me bem para este poser”. Admito).

 

Quando entrei naquele ginásio, ao fim da tarde, observei um espaço pequeno, meio espaço de musculação, meio espaço de passadeiras, meio espaço de ginásio de boxe, com sacos e cenas dessas. No espaço do boxe estava um aluno e o treinador, que depois vim a conhecer pelo nome de Braime. Ele disse que era na boa fazer o treino e disse-me para me ir equipar. Foi um treino curto, mas intenso, com exercício bastante diferentes do que estava habituado no KO. Mesmo assim, não vinha mal preparado, fisicamente, e penso que não deixei o Mestre Tayssinho ficar mal. Acima de tudo, estava surpreendido e contente de poder ter feito boxe ali. Já posso dizer que fiz boxe em dois lugares opostos do mundo. Para mim este tipo de experiências conta muito.

 

A meio do treino, o Braime perguntou-me quanto tempo estava em Bissau e se queria voltar a treinar no dia seguinte, tudo oferecido. Disse-lhe que não tinha a certeza se podia, visto que não sabia bem quando tinha de descer para Cacine (ainda estava à espera do telefonema do José a confirmar o dia). Trocámos contactos e fiquei de lhe ligar a confirmar. Ele até se ofereceu para abrir o ginásio de manhã cedo para eu treinar, caso eu não pudesse à tarde…QUE.BOM.TROPA. Nessa noite liguei-lhe a confirmar que no dia seguinte, à mesma hora estaria lá para treinar “Está bem, na paz, está em casa” respondeu ele.

No dia seguinte lá fui eu treinar. No início do treino, depois do aquecimento, o Braime ajudou-me a pôr umas ligaduras (umas fitas quse se usam no boxe, que se metem à volta de pulso e que, por baixo da luva, ajudam a proteger o pulso dos impactos) que não eram minhas, eram até mais fixes que as que eu tinha trazido. Já não foi um treino tão bem conseguido porque fizemos exercícios mais complicados (ainda peco por alguns problemas na técnica, derivado de ainda estar a aprender esta arte). Mas foi fixe na mesma, ainda deu para aprender bastante.

No fim do treino, trocámos contactos de facebook e agradeci bastante pela oportunidade que ele me deu de treinar ali. Ao ir embora, lembrei-me que tinha deixado as minhas ligaduras no clube. Vim a perceber que o instrutor da aula seguinte as emprestou a um aluno, pensando que pertenciam ao clube. O Braime apercebeu-se disto e ofereceu-me as ligaduras que eu tinha usado no treino. Volto a repetir, são ligaduras bem melhores que as que eu tinha trazido. Volto também a repetir…QUE.BOM.TROPA!

 

Deixo aqui a prova visual de que fui de facto ao clube Punch Fitness de Bissau, que aproveito para fazer publicidade gratuita. Na foto, para quem não me conhece, estou eu à direita e o Braime à esquerda.

 

boxe_bissau_braime_2.jpg

(Estou a gozar. Eu sou claramente o da esquerda, mas apanhei-vos aí, hã?)

 

Até que não ficou um post grande pa cacete. É só esperar que não esteja a gastar dados móveis à  toa para partilhar estas aventuras. Não é, escassos cinco amigos?

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Neste post vou continuar a descrever a minha experiência na cidade de Bissau. Desta vez vou falar da cidade em si, o que não é nada fácil visto que há tantos aspectos que posso destacar. Vou tentar escolher todos os interessantes.

Aqui e ali, este post pode ser usado como roteiro turístico para a cidade de Bissau. Se eu fosse boa pessoa destacaria a informação mais relevante de forma objectiva. Mas não sou, por isso  quem quiser saber vai ter que ler tudo; fodei-vos.

 

Transportes

 

Mãe do céu, a condução nesta cidade! Estão a ver aquelas cenas que se vê nos filmes da confusão que é conduzir numa cidade africana genérica? É tudo verdade e mais ainda, pelo menos em Bissau. Os carros param à beira da estrada ao desbarato e quem quiser que passe por cima. Em cruzamentos, passa o que se meter primeiro. A buzina é mais importante que piscas. O que são passadeiras? Normalmente não há passeios por isso pessoas na estrada é comum. Juro que vi uma ambulância em serviço de emergência a tentar entrar num cruzamento e ninguém poderia querer saber menos que os condutores desta cidade. Estranhamente, esta confusão funciona. Não vi nenhum sinal de acidente durante a minha estadia. Ordem na desordem.

Existem dois tipos de transporte público: os táxis e os toca-toca. Os toca-toca são aquelas Ford Transit, são amarelas e azuis e a viagem é baratíssima (100 XOFs, a moeda de cá ≈ 15 cêntimos). Nunca andei, não sei onde param.

Os táxis são mercedes velhos, azuis e brancos e que às vezes têm cintos de segurança a funcionar. Ah e os táxis são comunitários! O que isto quer dizer é que se estás no táxi e alguém vai mais ou menos para onde tu vais, essa pessoa entra. Quem decide é o taxista. O protocolo para interação com taxistas é relativamente igual ao de Lisboa: estás parado(a) à beira de estrada, o taxista buzina, estableces contacto visual com o taxista e ele pergunta telepaticamente "É para te apanhar ou páras de me fazer perder tempo?". Levantar o braço para aceitar, fazer gestos de negação vários para recusar. Antes de entrar no carro combinam o preço. Se fores branco, provavelmente vais pagar mais (isto é verdade para quase todos os serviços na cidade) mas não é preciso ser chulado. Tudo o que for acima de 1000 XOFs, para atravessar a cidade, é demais (só para ter uma ideia, 1000 XOF foi o máximo que paguei e corresponde a mais ou menos €1,5 *inserir piada sobre como os taxistas de Lisboa são uns gatunos que ainda se queixam da Uber*). Outro aspecto que é parecido a Lisboa no que toca a interação com os taxistas é o tema de conversa: Benfica, benfica, política, benfica e benfica. É só escolher, de nada.

 

Comércio

 

É incrivel a quantidade de comércio que existe nesta cidade. Não estou a referir-me apenas ao número de vendedores de "chinelas" por metro quadrado no Bandim (que é uma zona da cidade gigante dedicada ao comércio), estou a referir-me a toda a cidade. Em cada esquina existem pessoas a vender qualquer coisa. Desde fruta descascada, bananas, mancarra (amendoins), água potável em pacotes de plástico (é, água potável não é um recurso garantido, estimado leitor e provável europeu), cartões de telemóvel, "câmbio" de moeda, galinhas vivas, artesanato, roupa colorida, panos coloridos, sapatos coloridos, cintos, etc.

Dado o meu historial, espero não perder o meu passaporte cá mas, se isso acontecer, provavelmente vai estar à venda em Bissau. É só procurar.

As mulheres fazem aquela macumba do demónio de equilibrar tudo o que precisam de transportar, na cabeça. Respeito máximo.

Durante a minha estadia na cidade, houve algumas coisas que tive que comprar pois não deu para trazer de Portugal, porque não existe em Portugal ou porque me esqueci em Portugal. No primeiro dia comprei logo a rede mosquiteira para a cama, um bem de primeira necessidade para quem não se está a cagar para se apanha malária ou não (este vosso amigo que vos escreve está inserido nesta categoria).

 

Monumentos

 

Escasseiam. A história da cidade baseia-se na independência do país face aos portugueses, esses porcos colonos. Existe uma estátua de um punho de ferro que marca o banho de sangue resultante de uma greve de estivadores junto a um dos portos durante esse tempo. Na praça do império conseguem ver o palácio presidencial, a sede do PAIGC (o partido responsável pela independência) e acho que dá para subir ao restaurante do hotél Império para ter uma vista 360º da cidade (não cheguei a ir). Em Bissau velho a arquitectura colonial traduz-se em casas engraçadas de cores vivas e diferentes. Em Bissau velho há a fortaleza, um edíficio militar (acho que tem um museu com a história do país lá dentro).
Cuidado ao que tiram fotos, por exemplo, à fortaleza não se pode e vão ser chamados à atenção por guardas (sim, aprendi da pior maneira).

 

Sitíos onde consumir algo para o paladar

 

Confesso que não comi muito fora enquanto estive cá. Como poderia, com a hipótese de comer em casa do Francisco comida feita pela Mariana? Além disso, um dos cuidados a ter que me recomendaram antes de vir para cá é desconfiar da origem da comida e como esta foi cozinhada, sempre. Caso contrário, é favor procurar alguém que venda papel higiénico no Bandim e usar a saída de emergência.

Por duas vezes, fui degustar uma cerveja num bar com vista para a ilha do Rei (que fica em frente a Bissau). É engraçado porque é o cliente que tem que chamar alguém, isto se quiser ser atendedido. Tirando isso, é muito comum na Guiné-Bissau terem produtos portugueses mas não imaginei que fosse beber uma super bock com vista para o mar (rio?)...impecável.

Também comi um bitoque em dois sitíos diferentes, no Kais e no Samarina. No Kais a destacar o ambiente agradável (é onde alguns políticos vão jantar, portanto há-de ser o melhor que há na cidade), no Samaratina a destacar os preços fixes. Em ambos, fiquei satisfeito.

Mas o que eu gostei mesmo foi do jantar da véspera da partida para Cacine, na Taberna do Manel (fica algures aqui, até faço publicidade). O acesso é mau e o aspecto restaurante nada de especial. Posso contudo dizer, que comi os melhor chocos fritos de sempre. Recomendo.

 

Segurança

 

Pode-se dizer que a cidade é segura. Nunca durante a visita à cidade me senti ameaçado,  apenas muito observado por ser branco e/ou não aparentar viver na cidade. De qualquer maneira, preparei-me bem para a possibilidade do assalto, ou seja, não me pus a jeito para ser assaltado. A maior quantia de dinheiro e passaporte bem escondido numa destas cenas, não ostentar, não ter valores nos bolsos de fácil acesso e não parecer demasiado turista, o que quer que isso queira dizer. São os cuidados do costume.

Não tirei tantas fotos à cidade quanto queria porque não me senti seguro o suficiente em tirar a camera para fora, na maior parte dos casos. Tem a ver com a tal ostentação que falei. Fica ao critério de cada um.

 

Consulado de Portugal, ou lá o que é, em Bissau

 

Decidi criar uma secção só para falar mal do consulado de Portugal em Bissau. Então um jovem português está na cidade de Bissau e quer apresentar-se no consulado do seu país para caso aconteça alguma coisa saberem que estou por lá, pedir alguns contactos mais directos e os gajos nunca estão disponíveis? Primeiro fui lá disseram-me que o atendimento a portugueses é todos os dias das 9 às 12h30, na quinta-feira seguinte fui lá e disseram que afinal era só segundas, terças e sextas...convininente. Não é suposto um dos objectivos das embaixadas de um dado país estar ao dispor de cidadãos desse país? Feios.

 

É muito isto. Termino mais um post, com a noção que tenho 1460348 histórias diferentes que poderia contar sobre a cidade de Bissau, mas os meus quatro amigos não aguentam este blog se os posts continuarem a ser grandes pa cacete.

 

(Para os interessados em conhecer a Guiné-Bissau, sugiro a seguinte leitura: "À Descoberta da Guiné-Bissau". Li antes de fazer a viagem e foi fixe para me contextualizar em relação ao país e selecionar alguns pontos de interesse).

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publicado às 23:02




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