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Então que tal?

 

Este post fala de um assunto que eu tenho andado a adiar aqui no blogAnteriormente, mencionei que a Guiné-Bissau é um país mais pobre do que eu antevia. Neste post vou aprofundar um bocado o tema. A razão de eu não querer assim tanto falar deste assunto é que ainda não saber exactamente como estrututar isto num texto bonito, como de resto é meu costume, e porque não sei muito bem o que pensar sobre pobreza, parece-me um problema complexo. No entanto, é algo que faz parte da minha realidade aqui e não vou deixar de fora. Por isso, apresento as divagações sobre a pobreza da Guiné-Bissau, segundo um Jovem Português pouco confiante e que já despediçou um parágrafo enorme só a dizer sobre o que vai falar.

 

A Guiné-Bissau é um país com um potencial enorme no turismo e no comércio internacional. No turismo, porque tem um território com paisagens naturais incríveis e bastante abrangentes. Há praias que pouca gente conhece e que são de cair o queixo, há florestas que poderiam ser o cenário real do filme Tarzan. No comércio, porque existem recursos naturais que poderiam tornar a Guiné-Bissau num próspero exportador. Desde pesca, à fruta, arroz e aos minérios.

É um bocado díficil dizer se a instabilidade política, que impossibilita um país bem sucedido, é a causa ou a consequência da cultura guineense. No entanto, parece-me que a cultura guineense não favorece a situação. Em muitas situações se pode ver que o trabalho é feito de forma descuidada.

Por exemplo, nos vários sítios "turísticos" a que fui, tanto em Bissau como mais aqui para o sul do país (restaurantes e bares), o atendimento é mau. Não me parece que o tratar bem o cliente seja uma prioridade para que o negócio possa ser bem sucedido. Fui a um bar, em Jemberem, com a fisgada de beber um café como deve ser e, além de me terem dito que só tinham coca-cola à temperatura ambiente, quando eu, estupidamente, pedi a coca-cola na mesma, a empregada chamou uma rapariga para ir comprar coca-cola a uma loja próxima. Surreal, eu sei, mas é o que acontece por aqui. Já agora, a coca-cola à temperatura ambiente não sabe bem. Nem as minhas saudades desse néctar do deuses ajudaram.

Um outro facto, é a educação não ser uma prioridade. Principalmente nas raparigas, talvez consequência da sociedade com traços machistas, nota-se o desinteresse em aprender. Mais uma vez, parece que não vêem o potencial de ter uma boa educação.
Como disse, a semana passada foram os testes do 2º trimestre. Pensava que ía ser uma semana em que os miúdos iam estar mais concentrados e com o rabo apertado, mas não. Duvido que a maior parte deles tenha estudado. Não que eu quando estava na escola estudasse muito, também, mas pelo menos sentia-me mal. Resultado: cabular e copiar pelos colegas. Eu, como professor fodido que gosto de parecer, trabalhei muito.

Mas deixando de parte o que acho que devia mudar na mentalidade do povo guineense para melhorar as condições do país, vou falar da consequência disto tudo. Como sempre, vou falar da realidade que conheço. Cacine é uma zona isolada no sul do país. Talvez por essa razão, tudo é mais díficil de conseguir que em Bissau excepto, talvez, peixe. Como também não há assim tanta oportunidade de fazer dinheiro, é notável a pobreza que aqui se vive. As casas das pessoas são de construção fraca, não há água potável nas casas e não há electricidade e alimentação, no geral, é fraca.

Numa das primeiras semanas, numa aula depois das 14h, o professor Pedro, ao reparar que os alunos estavam pouco participativos, decide lançar a graçola "Então, está tudo com sono por ser depois de almoço?". Não responderam. "Não devem ter percebido o meu português...típico". Já não sei em que contexto, falei disto ao Valberto durante o almoço, uns dias mais tarde, e ele disse que, muito provavelmente, os alunos ainda não tinham almoçado. Em muitas famílias a única refeição do dia faz-se às 16h. Caiu-me a ficha. E faz-me pensar que saltar de refeições deve contribuir, em grande parte, para o insucesso escolar e baixo nível de educação de que já aqui falei. Não há milagres.

Mais um exemplo da realidade daqui. É comum, no fim da refeição, o pessoal lá de casa preparar uma taça do nosso almoço para dar a um rapaz ou rapariga que esteja lá fora à espera. Dá que pensar.

Ainda em relação a isto da alimentação, não tenho a certeza que o que vou dizer a seguir faz sentido, do ponto de vista cientifico. Eu meço ≈1,75m. Em Portugal, tenho uma estatura média, não sou baixo mas também não sou alto. No entanto, aqui na Guiné, sou alto. Passo a explicar a minha teoria: como aqui a alimentação é precária (muito arroz, pouca proteína e poucos vegetais), as pessoas são, em média, mais baixas. É preciso não ter muito em que pensar para reparar nestas coisas.
O que também me ponho a pensar é que cresci com segurança, bem alimentado, fiz os meus estudos de forma consistente e terei trabalho quando voltar a Portugal. Em princípio, não me faltarão condições básicas de vida. Tive mais oportunidades, à partida, que as pessoas aqui em Cacine. Talvez o que tenha mudado com esta experiência é a humildade de perceber que tive sorte. Se tivesse nascido aqui em Cacine, por exemplo, será que teria vingado nos meus estudos? Será que com menos oportunidades, teria a teimosia de me esforçar para conseguir terminar um curso e conseguir um trabalho posteriormente? Nunca saberei, felizmente para mim.

Não foi de todo como imaginei que seria o texto, quando pensei rapidamente sobre ele antes de começar a escrever. Parece que são uma data de histórias coladas a cuspo e separadas por parágrafos. Na verdade, tudo isto foram pensamentos soltos que fui tendo durante a minha estadia aqui na Guiné-Bissau. Portanto, é até ironia do destino que o texto reflicta isso mesmo. Tiveram que levar com mais um post grande pa cacete e sem grande critério, 17 amigos. Sou, na escrita, como a minha altura em Portugal: medianozinho.

P.S.: Mãe, estou a comer bem. Não como tão bem como como em Portugal, mas não estou a passar fome.

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publicado às 19:37





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