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Então que tal? No último post descrevi a viagem de Bissau para Cacine, destino este onde vou passar a maior parte da minha estadia na Guiné-Bissau. Neste post vou descrever a minha casa e o projecto, tal como me foi explicado. Concluo com a minha impressão sobre Cacine, como localidade.

 

A minha casa

 

Quando cheguei, numa sexta-feira à noite, apresentaram-me a minha casa. É um edíficio que na verdade tem duas casas. Ao meu lado, vive outra voluntária, chamada Helen. É canadiana e tem 60 e tal anos. Muito simpática.
Mas bem, a minha casa tem três divisões: a cozinha, o quarto e a casa-de-banho. A cozinha tem uma mesa que serviria para refeições, não fosse eu um desarrumado por natureza, portanto uso para deixar coisas em cima. Tem um fogão pequeno com dois bicos, ligados a uma botija de gás. Tem também um armário onde eu guardo os meus mantimentos e onde há talheres e cenas.

O quarto é fixe, duas camas individuais e um armário para guardar a roupa. Tem também uma secretária que eu uso para deixar coisas e, no espaço que resta, uso o computador.

A casa-de-banho também seria fixe, se a água do chuveiro e da torneira não viessem a conta-gotas. Não há água quente, também. Eu que, em Portugal, até no verão uso água quente, pensava que tomar banho de água fria iria custar. Não sei se por a temperatura aqui em Cacine ser agradável ou por eu já estar psicologicamente preparado para fazer sacrifícios, não me custa tomar banho de água fria. 'Tá tranquilo.

No geral a casa tem um aspecto velho, mas é um espaço digno e vejo-me a morar aqui durante alguns meses, sem problemas. A casa até é fresca, tenho luz 24/7 e tenho electricidade para carregar as cenas quando faz sol…literalmente (energia solar ftw).

Ainda na primeira noite, depois de já estar sozinho no meu espaço, não pude deixar de reparar que no canto do tecto, mesmo no canto acima da minha cama, estava uma aranha, assumo que a olhar para mim. Reparem que não era um aranhiço que normalmente costumo ver em Portugal. A aranha era tão grande que acho que a certa altura começou a falar comigo, e disse “estás a olhar para onde, oh palhaço?”, mas posso ser só eu a exagerar. Gostava de poder dizer que resolvi o problema sozinho com o auxílio de uma vassoura, como um homem capaz deve fazer. Mas não fui, pedi ajuda. Orgulho para o galhete.

Entretanto, depois do primeiro choque já tenho lidado com os bichos sozinho (desde baratas, formigas, mosquitos a osgas). Faz parte da experiência.

No entanto, numa noite encontrei uma aranha também bastante grande na cozinha e esmaguei-a parcialmente com a vassoura. Digo parcialmente, porque quando tirei a vassoura, a aranha fugiu. Agora, passo as noites à espera do momento em que a aranha, sedenta de vingança, me venha colher a vida. É assim que imagino o reencontro:

- Últimas palavras? - pergunta a aranha. Conformado com o meu destino, respondo:
- Lamento toda a dor que te causei. Make it quick :')

Ou algo do género.

 

O projecto

 

Associação Amigos das Escolas da Guiné-Bissau (AAEGB) é um projecto criado já há 20 anos, pelo José. Traduz-se numa escola chamada Betel, do pré-escolar ao 11º ano e, num local mais afastado, a rádio local chamada “Voz de paz” e a sala de informática. Neste local onde existe a rádio e a sala de informática, a energia do edifício é fornecida por um gerador, por isso uma vez por outra, tenho que o ir ligar. Vida de tabanca.

A rádio funciona todos os dias das 19h30 às 22h30, acho. Para aproveitar que o gerador está ligado durante as minhas aulas de informática da manhã, também existe uma emissão das 9h30 até às 11h. Os locutores são voluntários da associação. Muitos também dão aulas na escola.

O projecto também dá ajuda monetária a alunos da escola que, depois de acabarem o 11º ano na escola Betel em Cacine queiram fazer o 12º ano e um curso superior. As pessoas que são ajudadas a fazer um curso superior, quando terminarem, vão voltar para Cacine e vão ajudar a comunidade com o curso que tiraram, têm que assinar um contracto. No entanto, há um limite de estudantes que pode estar em Bissau porque a associação não consegue ajudar muitos de cada vez. É normal alguns esperarem em Cacine durante um ano ou assim até terem oportunidade de ir estudar para Bissau. Imagino que para quem passa a gostar mais de Bissau, que ainda assim tem mais condições de vida e oportunidades que em Cacine, tenha muita dificuldade em voltar. Mas aparentemente, a associação ajuda pessoas que são bastante altruístas e que gostam mesmo de Cacine. De qualquer maneira, é uma estratégia muito fixe para melhorar a vida de Cacine, formando as pessoas e possibilitando-as de exercerem a profissão enquanto ajudam a comunidade.

 

A tabanca

 

Aqui na Guiné-Bissau, chamam tabancas às aldeias. Cacine é uma tabanca na região do Tombali e é uma espécie de capital para as tabancas menores que existem na zona. Mas não pense, o leitor, que é um grande centro urbano. No fundo Cacine é uma rua principal, onde existem umas 5 lojas de conveniência, uma farmácia e um hospital muito pequeno (não tem médicos, só enfermeiras). A boa notícia em relação ao hospital é que vai dar para fazer o teste malária quando estiver a morrer, o que é agradável. Existem uns postes de luz alimentados a energia solar, mas nunca os vi a funcionar todos ao mesmo tempo. Uma coisa que reparo aqui na Guiné-Bissau é que as coisas funcionam...às vezes.

Como é uma tabanca junto ao mar, também tem um porto e existe alguma exploração de peixe, por parte de uma empresa coreana. Pelo que ouvi, além de explorarem peixe, também exploram os guineenses nas condições de trabalho. Além disso, e o mais importante, como o peixe é todo exportado, resta pouco para eu comprar caso esteja cansado de comer arroz com atum de lata. Vida dura. (É só humor, pessoal. A exploração de guineenses é o mais importante, vá).

Mas a melhor cena em Cacine é que tem praia! Ok, não é uma grande praia, quando a maré está cheia não há areia seca para pousar nada, mas é melhor que os 2 ºC que têm estado aí em Lisboa, seus rotos. A temperatura da água diria que é tipo Algarve. Portanto, nada mau.

 

Com isto, termino o post. Tinha planeado descrever também sobre a minha primeira semana aqui, falando da minha experiência como professor e como aluno, mas como este post já estava a ficar grande pa cacete e como eu divago, vão ter que ficar à espera e na ignorância até que me apeteça escrever no blog novamente (eu sei que vai custar). Isto porque e eu não quero maçar os meus 7 amigos, caso ainda estejam a acompanhar, com a leitura do novo testamento.

Despeço-me com uma foto da minha casa e eu, ainda de boa saúde. Vivo na selva!

 

IMG_8521.jpg

 É muito isto.

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publicado às 20:30





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