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Neste post vou descrever um bocado como me sinto, quando não tenho o uniforme de professor vestido. Digo isto porque, quanto estou nas aulas ou a planear as mesmas, sou uma pessoa séria que encara o que estou a fazer como um trabalho. No restante tempo, sou uma criança em constante aprendizagem. Não só aprendizagem no sentido em que estou a conhecer uma cultura diferente, em que me tenho que adaptar aos costumes e cenas daqui, por mais crueis que eles sejam (relembro o pacote de sementes), mas porque estou numa realidade rural, num país que já à partida é bastante primário nas activadades do dia-a-dia.

 

Uma criança...


Durante toda a minha vida vivi no meio urbano. Não cresci propriamente numa cidade, mas desde o tempo da faculdade que a minha realidade é a vida lisboeta. O meu contacto com o meio rural não foi nulo, visitas a familiares na terrinha e assim introduziram-me a vida do campo. Mas, pela primeira vez, estou a viver no campo.

Estou a ter oportunidade de aprender como se fazem as coisas aqui, numa região em que tudo dá mais trabalho e há muito menos acesso a recursos. Tenho aproveitado para conhecer mais e experimentar fazer mais. Provavelmente é conhecimento que não vou aplicar noutro sítio, mas estou a gostar e faz-me sentir menos um estrangeiro, quase 'di tera'.

Em concrecto, há várias actividades que provavelmente só vou ter oportunidade que fazer aqui. Desde apanhar e preparar a malagueta, tirar água do poço (grande ciência, não dominei), lavar a minha roupa à mão (esta aqui é por necessidade), apanhar e preparar fruta, e outras (que não estou a ver agora).

 

...feliz

 

Já que falo de apanhar fruta, vou dedicar o resto do post à segunda parte do título. Já vimos que sou uma criança porque estou a aprender coisas básicas com as quais nunca tinha tido contacto. A parte do feliz é porque estou a ter uma experiência muita rica em termos de gastronomia (além do que já falei), particularmente em relação à fruta.

Especialmente por estar em Cacine, uma tabanca no meio do campo, o clima tropical cria muito boas condições para os mosquitos viverem, é certo, mas também para haver uma grande variedade de frutas exóticas. Algumas que nem sabia da sua existência. É muito engraçado perceber como a malta convive com as árvores de fruto. É normal ver crianças juntos às árvores, que estão por todo o lado, as árvores diga-se. Quando isso acontece, sei que estão a tentar apanhar algum fruto através do arremesso de pedras. É impressionante a precisão com que miúdos pequenos conseguem tirar a fruta das árvores, algumas delas a muitos metros de altura.

Quando cheguei cá, em Fevereiro, não é que houvesse grande coisa, ainda não era a época de nenhuma fruta. No entanto, a primeira vez que me fascinei com fruta aqui, por ser algo fora do vulgar para mim, foi quando fiz o tal passeio a Campeane. Lá, provei pela primeira vez, côco (aqui chamam 'coconete') acabado de apanhar. O que achei mais incrível foi a água de côco, muito bom. Gostei de ver o processo todo desde apanhar o côco, até o descascar e partir. Aqui usa-se uma catana para descascar e partir o côco. How cool is that? Entretanto, já aprendi como se faz e mantenho os meus dedos todos. 

Outras fruta que há muito aqui, como já referi, é o cajú. Não que seja a melhor fruta de sempre, na minha opinião, mas sabe bem e há em grandes quantidades. Dá para comer ao natural, fazer sumo e fazer compota. Com a castanha do cajú, dá para fazer o fruto seco aquele que já conhecia. O processo para obter o fruto seco do cajú é um bocado perigoso, por isso é que parte da minha aprendizagem não passou por aprender a preparar. Mas observei, portanto posso contar para quem quiser saber. Basicamente parte do fruto é uma casca rija, chamada "cuco de cajú" que têm lá dentro o fruto seco. Põe-se no fogo o cuco de caju até que incendeie. Aí, parte-se a casca,que por essa altura parece carvão, e lá dentro tem o fruto seco. Como podem imaginar, sabe muito melhor através deste processo natural.

Mas a fruta que me deixou mais fascinado (e uma criança histérica por dentro) é a manga. Em Portugual não há muita manga, sem ser daquela importada (provavelmente do Brasil). Por isso, a minha opinião em relação à manga, não é que valha muito porque nunca comi muita. No entanto e sem exagerar, as mangas que comi aqui são as melhores que já comi. A época da manga começou há umas semanas e há árvores por todo o lado. A quantidade de manga resultante é tão ridícula que os miúdos usam manga verde que cai no chão para atirar e apanhar outras mangas. Apesar de na época forte da manga já estar de volta a Portugal, sinto-me um grande sortudo por ter tido grandes quandidades de manga à minha disposição. A desvantagem é que agora que provei manga desta, não sei como vou comer da que se vê em Portugal.

Outras frutas que já experimentei, mas que não há em grande quantidade, vão desde o sumo de cabaceira (excelente), sumo de veludo (espectacular), lima e pinha. Pinha é meio estranho porque tem um dos melhores sabores em fruta que já provei, mas tem uma consistência de esponja para lavar a loiça (especialmente quando não está bem madura). Assim, fico dividido.

 

Vou concluir mais um post grande pa cacete quebrando a minha regra das fotos em posts, mas caguei. Faz sentido para completar a descrição desta parte da experiência. Aceitam-me como sou, 25 amigos?

 

A criança feliz com um côco na mão (em Campeane):

IMG_8616.jpg

 Cocô partido:

IMG_8619.jpg

 Manga acabada de apanhar e oferecida por um aluno de Informática (curiosamente, vai ter nota máxima):

UNADJUSTEDNONRAW_thumb_126.jpg

Fruto seco do cajú, acabado de fazer: 

IMG_9435.jpg

Malagueta apanhada por um jovem Português, plantada no quintal do meu canto:

UNADJUSTEDNONRAW_thumb_127.jpg

É muito isto.

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publicado às 17:06





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